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Substância do veneno da jararaca ajuda a regenerar sistema nervoso

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Uma substância isolada do veneno da jararaca há mais de 60 anos ainda revela novas aplicações. Estudo divulgado nesta quinta-feira, 25, na 26ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (Fesbe), no Rio, mostrou que a bradicinina, uma das principais toxinas da serpente brasileira, pode exercer um surpreendente papel na geração e proteção dos neurônios.
A bradicinina foi isolada, pela primeira vez, em 1949, por Maurício Oscar da Rocha e Silva, pesquisador brasileiro que ajudou a fundar a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e identificou as propriedades hipotensoras - ou seja, para diminuir a pressão arterial - da substância.
A história tornou-se um exemplo clássico da inaptidão do País para transformar descobertas de bancada em negócio e, depois, em serviços que melhorem a vida das pessoas. Apesar de ter sido isolada de um animal brasileiro por um cientista brasileiro, a bradicinina foi patenteada por estrangeiros e tornou-se um medicamento lucrativo vendido por uma multinacional: o captopril.

O cientista alemão Henning Ulrich, radicado no Brasil desde 1999, acredita que chegou a hora de recuperar o tempo perdido e descobrir uma nova finalidade para a substância - agora, gerando dividendos para o País. Pesquisador do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (IQ-USP), decidiu estudar a bradicinina durante o doutorado na Universidade de Hamburgo, na sua terra natal. Ele analisava outra proteína responsável pela fantástica capacidade de regeneração das hidras - um invertebrado aquático. Sabia que seres humanos também produzem a mesma substância e supôs que ela serviria para regenerar tecidos. Os resultados não foram muito empolgantes, mas, ao compará-la com a bradicinina, descobriu que a substância obtida da jararaca funcionava muito bem na regeneração neuronal.
Ulrich explica que as células humanas também produzem a bradicinina, mas em uma concentração bem mais baixa que a observada no veneno da jararaca. Na realidade, a serpente utiliza doses imensas de bradicinina para nocautear suas presas com a queda de pressão arterial após a mordida. Obviamente, hoje, a substância já pode ser sintetizada em laboratório.
Nos testes realizados com camundongos, Ulrich mostrou que a bradicinina faz com que células progenitoras do sistema nervoso diferenciem-se em células da glia, que oferecem suporte e nutrição aos neurônios, além de exercer outras importantes funções no cérebro. Na prática, uma lesão cerebral nos modelos animais apresentavam uma evolução muito melhor quando ocorriam na presença de doses extras da substância.
O grupo de pesquisadores também mostrou que a bradicinina exerce um papel neuroprotetor. Quando um neurônio morre, ele libera glutamato, substância tóxica para as células vizinhas, aumentando o impacto da lesão. Na presença da bradicinina, a intensidade da reação em cadeia diminui bastante.
A pesquisadora Telma Schwindt, do Laboratório de Neurociências do IQ-USP, coordenado por Ulrich, testou a substância em modelos de camundongos com Parkinson. Algumas manifestações da doença praticamente desapareceram.
Como a substância já está no mercado, seria possível começar os testes em seres humanos pela fase 3 - ou seja, pulando testes preliminares para determinar a segurança e a dosagem. Ulrich espera que alguma indústria farmacêutica queira associar-se ao projeto. Ele recorda que os resultados obtidos até agora indicam que a substância pode aumentar as chances de sucesso no transplante de células-tronco, algo que pode interessar às empresas que investem nesta linha de pesquisa.
FONTE: ESTADÃO

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